1961 – «O Assalto ao Santa Maria»

No início de 1961, o navio “Santa Maria” era um dos dois maiores e melhores paquetes portugueses, propriedade da “Companhia Colonial de Navegação”, conjuntamente com o seu “irmão”, o navio “Vera Cruz”. Os paquetes “Infante Dom Henrique” e “Príncipe Perfeito”, seriam inaugurados nesse mesmo ano. O “Santa Maria” havia sido construído em 1952 e comportava 1242 passageiros. Navegava, geralmente, para as Américas do Sul, Central e do Norte. Mais tarde chegou a transportar tropas para as guerras que Portugal mantinha desde 1961 nas antigas Colónias Portuguesas de África.

Figura quase desconhecida do “grande público português”, o Capitão Henrique Costa Mata Galvão (1895-1970), havia sido um fiel servidor do Estado Novo, onde, para além de ter sido Deputado, fora Governador de Huíla, Angola, director da Exposição Colonial do Porto e director da Emissora Nacional. Anteriormente, ainda como cadete, em Dezembro de 1917 participara na revolta que levou Sidónio Pais ao poder, durante a 1.ª República e aderira ao Golpe de Estado do 28 de Maio de 1926. No início da década de 50, Henrique Galvão desiludiu-se com o regime de Salazar e começou a conspirar com outros militares, mas acabou por ser descoberto, preso e expulso do exército. Em 1959, aproveitando uma ida ao Hospital de Santa Maria, fugiu e refugiou-se na embaixada da Argentina, tendo conseguido exílio político na Venezuela.

O sequestro do navio seria levado a cabo sob a bandeira do D.R.I.L, o Directório Revolucionário Ibérico de Libertaçãouma organização armada formada em 1959 por exilados Espanhois (especialmente galegos ) e Portugueses para lutar contra as ditaduras de Franco e Salazar.

O Santa Maria, tinha largado a 9 de janeiro de 1961 para uma viagem regular até Miami. Henrique Galvão embarcou clandestinamente no navio, em CuraçaoAntilhas Holandesas. A bordo já se encontravam os 20 elementos da Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, grupo que assumiria a responsabilidade pelo assalto. O navio levava cerca de 612 passageiros e 350 tripulantes. A operação começou na madrugada de 22 de Janeiro, com a ocupação da ponte de comando. Um dos oficiais de bordo ofereceu resistência e foi morto a tiro; os restantes renderam-se. O paquete mudou de rumo e partiu em direcção a África. Henrique Galvão queria dirigir-se à ilha espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, e a partir daí atacar Luanda, que seria o ponto de partida para o derrube do governo de Lisboa. Um plano  condenado ao fracasso, mas que chamaria as atenções internacionais para a ditadura Salazarista.

As coisas começaram a complicar-se quando o navio foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que avisou a guarda costeira americana. Daí até à chegada dos navios de guerra foi um ápice. Vendo que tudo estava perdido, Henrique Galvão decidiu rumar ao Recife e render-se às autoridades brasileiras, pedindo asilo político, que foi aceite.

Mal o navio atracou ao cais do Recife, e já o General Humberto Delgado, o mais importante dissidente de então ao regime de Salazar, entrava no navio onde esteve a dialogar com o Capitão Henrique Galvão.

                         

Partilhar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *