São rosas, Senhor, são rosas

A Rainha Isabel de Aragão, mais conhecida entre nós por Rainha Santa Isabel, casou em 1282 com D. Dinis, rei de Portugal. 

Devota e piedosa, é-lhe atribuído um milagre conhecido como o Milagre das Rosas. Não cabe aqui fazer juízos de crenças ou religiões, porém na medida em que neste suposto milagre desponta uma célebre frase ainda hoje repetida, decidiu-se abordar a questão.

De acordo com a lenda, a Rainha teria saído do castelo com um carregamento de pão para distribuir pelos pobres. D. Dinis tê-la-ia surpreendido em tais preparos e com severidade a questionou sobre o que levava no regaço.

A Rainha, conhecedora de que o Rei não gostava que se dedicasse a tais actividades, mentiu piedosamente, dizendo « são rosas, Senhor, são rosas». Desconfiado, o Rei não acreditou, afinal era inverno e não existiam por ali rosas. Então, D. Isabel abriu o regaço e logo rosas vermelhas se espalharam pelo chão.

A verdade dos factos revela que essa frase dificilmente terá sido proferida. Antes de mais porque as biografias da Rainha feitas a seguir à morte de  D. Isabel não contemplam o referido milagre e só em 1562 è que surge a primeira referência escrita ao milagre através de Frei Marcos de Lisboa, na Crónica dos Frades Menores. É estranho que o mito só tenha passado à escrita quase 300 anos depois.

Na verdade, os milagres das rosas são milagres padrão noutros locais do mundo. A Castelhana Santa Cacilda (seculo XI , ou a Italiana Santa Zilda (seculo XIII) contam com idênticos milagres no currículo.

Mas o caso mais curioso ocorreu com a própria tia, a Rainha Santa Isabel da Hungria (1207 – 1231) a quem a biografia atribui um milagre igualzinho. 

Salvaguardando questões de fé, o famoso milagre das rosas parece nunca ter existido.

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