CAMARATE – A Confissão – Parte III

Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições. Restava portanto a via de um atentado.

Perguntam-me se já recrutei a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo.

Respondo que em Espanha arranjaria alguém da ETA para vir cá fazer o atentado, se tal fosse necessário.

Quem paga a operação e a preparação do atentado é a CIA e o Major Canto e Castro.Canto e Castro colabora na altura com os serviços Secretos Franceses, para onde entrou através do sogro na época.

Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues (que na altura ainda não conhecia). O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistência moçambicana, a Renamo.

Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Três semanas antes dos atentado, Canto e Castro e Frank Sturgies, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa. Frank Sturgies pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho. Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA. José Esteves prepara então na sua casa no Cacém, um engenho para o atentado. 

Conta com a colaboração de outro operacional  chamado Carlos Miranda, especialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal.

É marcado por Oliver North um jantar no hotel Sheraton. Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North , chamado Penaguião.

Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro. Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião.

Penaguião afirma, de forma fria e directa que Sá Carneiro também iria no avião, “pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada!” Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do tráfico de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas.

Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado. Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi.

Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo. Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA.

Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS.

Ler parte II             Continua

 

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9 comments

  1. Parabéns! Muito obrigado por criar este artigo, tenho dificuldade sobre este tema, mas neste momento analisando
    esse artigo tudo se tornou mais claro. Com toda certeza retornarei
    aqui afim de comentar algumas questões sobre o tema.
    Mais 1 vez parabéns!

    1. Ola, existem três posts sobre este assunto no site. Se precisar de algo mais especifico existe um livro sobre o assunto. Titulo, Camarate – Autor, Augusto Cid – Edição Distri Editora.

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