No Rasto do Ouro Nazi em Portugal

Portugal recebeu, pelo menos, 228 toneladas de ouro nazi, confirmam vários documentos encontrados numa estação ferroviária de Canfranc, parcialmente desactivada, em Espanha. Milhares de documentos foram descobertos na estação e nas suas imediações quando se procedia à limpeza do local após ter sido utilizado como cenário de um filme. Os documentos – relativos à II Guerra Mundial e descobertos pelo francês Jonhatan Dias, residente em Oloron-Sainte-Marie, França – referem a origem do ouro e o percurso e destino das mercadorias, que incluía a ligação ferroviária até Canfranc, seguindo depois em camiões para Portugal.

Resolução do Conselho de Ministros n.º 57/98 | comissão transacções ouro 

Foi no dia 8 de Abril de 1998 que uma resolução do Conselho de Ministros criou uma comissão, dotando-a de poderes para elaborar um parecer esclarecedor quanto à origem das toneladas de ouro que Portugal recebeu nos cinco anos que durou a II Guerra Mundial.

É criada a Comissão de Investigação sobre as Transacções de Ouro Efectuadas entre as Autoridades Portuguesas e Alemãs durante o Período Compreendido entre 1936 e 1945, adiante designada por Comissão.

2 – A Comissão funciona junto da Presidência do Conselho de Ministros e tem a seguinte composição:

Dr. Mário Soares, que presidirá;
Prof. Joaquim da Costa Leite;
Dr. Joshua Ruah;
Prof. Jaime Reis;
Prof. António Telo;
Prof. Luís Campos e Cunha.
3 – Sempre que para tal for convidado pelo respectivo presidente ou sempre que o solicite, o Sr. Israel Singer pode participar nos trabalhos da Comissão.

A comissão Soares reuniu-se por diversas vezes no decorrer do mês de Janeiro de 1999 e no dia 26 de Janeiro aprovou o relatório final.”A investigação efectuada não permitiu encontrar motivos para se considerar que o governo de Salazar possa ser acusado de ter recebido, com conhecimento de causa, ouro roubado pelos nazis durante a II Guerra Mundial.

Esta é a versão da comissão, no entanto, outras existem.

Entre 1939 e 1945, por conta dos custos com a guerra, os recursos financeiros alemães começaram a esgotar-se rapidamente. Como a sua moeda, o marco alemão, era rejeitada em quase todos os países mais importantes, os alemães tiveram que recorrer ao ouro para pagar as suas despesas. Os nazis não tiveram dúvidas e usaram as reservas roubadas aos povos conquistados para aumentar as suas finanças. E não só ouro, mas todos os bens de grande valor, como jóias, porcelanas e outros objectos.

Com os bancos da suíça funcionando como “lavandaria” para o ouro roubado aos europeus pelos alemães, toda essa riqueza pilhada foi transformada em divisas estrangeiras para o III Reich. Portugal, por exemplo, recebeu 70 caminhões com divisas para o Banco Central Português a partir das barras de ouro pilhadas.

Os serviços secretos dos aliados calcularam que o montante de ouro recebido da Alemanha pelos portugueses chegava, na época, ao valor de 144 milhões de dólares, dos quais boa parte era de ouro belga roubado pelos nazis. Em 1944 os carregamentos cessaram e o banco central português resolveu vender o ouro suspeito, encerrando a famosa “Conta C” de onde provinha maioritariamente o ouro que Portugal recebia dos nazis.

O ouro adquirido na Suíça pelo banco central português era transportado por camiões de carga suíços ou franceses, geralmente deixando Berna à segunda-feira, via Annemasse, Canfranc, Madrid e Badajoz. Uma vez chegado à fronteira, o carregamento era transferido para um camião português, visto não ser permitida a entrada no país a veículos comerciais estrangeiros. A chegada a Lisboa ocorria geralmente à sexta-feira à tarde, ou ao sábado, havendo atrasos. Se considerarmos os carregamentos oriundos de todas as contas do Banco de Portugal em Berna estes perfazem um total de oito no período entre Outubro de 1941 e Fevereiro de 1942.

Daí em diante houve uma média de um carregamento por semana até à ocorrência do último em Fevereiro de 1944, exceptuando-se o período entre Julho e Setembro de 1943, em que a média foi de dois carregamentos por semana.

Passagem do ouro por Fátima

Eram quatro as barras de ouro nazi que em 1976 estiveram depositadas numa conta bancária do Santuário de Fátima.

A origem do ouro não era segredo, mas o Santuário não abdicou dele nem contestou a sua origem. O segredo foi revelado pela revista Visão que noticiou assim a passagem por Portugal de quatro barras de ouro no valor de aproximadamente 127 mil contos vindos da casa da moeda Prussiana e datadas de 1942. A data e a origem não oferecem dúvidas, era ouro roubado pelos nazis e fundido no auge do III Reich.

De acordo com a Visão, a descoberta foi feita através da análise de uma relação apresentada pelo conselho de gestão do banco pinto Magalhães, no Porto, de todas as barras de ouro que integravam o deposito da conta do Santuário de Fátima.

No entanto, o puzzle ficou incompleto. Falta saber como as barras de ouro vieram parar ao deposito do Santuário, quando saíram e que destino tiveram.

Quando do funeral de Mário Soares, o Banco de Portugal imitiu o seguinte comunicado.

O Banco de Portugal sublinha que teve “o privilégio” de manter com Mário Soares uma estreita colaboração, quando em 1998 aceitou presidir à comissão nomeada para estudar a questão do ouro recebido da Alemanha durante a II Guerra Mundial.

Recorde-se que o relatório sobre o ouro nazi, apresentado, em 1999, pela comissão presidida por Mário Soares, concluiu não haver motivos para se considerar que o governo de Salazar possa ser acusado de ter recebido, com conhecimento de causa, ouro roubado pelos nazis durante a II Guerra Mundial.

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