CAMARATE – A Confissão – Parte II

Regressando contudo à minha actividade em Portugal, anteriormente a Camarate e ao serviço da CIA, devo referir que conheci Frank Carlucci, em 1975, através de duas pessoas: um jornalista Português da RTP, já falecido, chamado Paulo Cardoso de Oliveira, que conhecera em Angola, e que era agente da CIA, e Gary Van Dyk, agente da BOSS (Sul Africana) que conheci também em Angola.

Mantive contactos directos frequentes com Frank Carlucci, sobretudo entre 1975 e 1982, de quem recebi instruções para vários trabalhos e operações.

Em Lisboa, também lidei e recebi ordens de William Hasselberg – antena da CIA em Lisboa, que além de recolher informações em Lisboa actuava como elo de ligação entre portugueses e americanos.

Tive inclusivamente uma vida social com William Hasselberg, que inclui uma vida nocturna em Lisboa, em diferentes bares, restaurantes, e locais públicos. Neste âmbito, trabalhei em operações de tráfico de armas, e em infiltrações em organizações com o objectivo de obter informações políticas e militares, “Billie” Hasselberg fala bem português, e era grande amigo de Artur Albarran.

Hasselberg e Albarran conheceram-se numa festa da embaixada da Colômbia ou Venezuela, tendo Albarran casado nessa altura, nos anos 80, com a filha do embaixador, que foi a sua primeira mulher.

Da parte militar da CIA conheci o Coronel Wilkinson, a partir de quem conheci o coronel Oliver North e o Coronel Peter Bleckley. O coronel Oliver North, militar mas também agente da CIA e o coronel Peter Bleckley, são os principais estrategas nos contactos internacionais, com vista ao tráfico e venda de armas, nomeadamente com países como Irão, Iraque, Nicarágua, e o El Salvador. 

Em meados de 1980, Frank Carlucci refere-me, por alto, e pela primeira vez, que eu iria ser encarregue de fazer um “trabalho” de importância máxima e prioritária em Portugal, com a ajuda dele, da CIA, e da Embaixada dos EUA em Portugal, sendo-me dado, para esse efeito, todo o apoio necessário.

Tenho depois reuniões em Lisboa, com o agente da CIA, Frank Sturgies, que conheço pela primeira vez. Frank Sturgies é uma pessoa de aspecto sinistro e com grande frieza, e era organizador das forças anti-castristas, sediadas em Miami, e era elo de ligação com os “contra” da Nicarágua.

Frank Sturgies refere-me então, que está em marcha um plano para afastar, definitivamente, (entenda-se eliminar) uma pessoa importante, ligada ao Governo Português de então, sem dizer contudo ainda nomes.

Algum tempo depois, possívelmente em Setembro ou Outubro de 1980, jogo ténis com Frank Carlucci quase toda a tarde, na antiga residência do embaixador dos EUA, na Lapa. Janto depois com ele, onde Frank Cartucci refere novamente que existem problemas em Portugal para a venda e transporte de armas, e que Francisco Sá Carneiro não era uma pessoa querida dos EUA.

Depois já na sobremesa, juntam-se a nós o Gen. Diogo Neto, o Cor. Vinhas, o Cor. Robocho Vaz e Paulo Cardoso, onde se refere novamente a necessidade de se afastarem alguns obstáculos existentes ao negócio de armas.

Todos estes elementos referem a Frank Caducci que eu sou a pessoa indicada para a preparação e implementação desta operação.

Em Outubro de 1980, num juntar no Hotel Sharaton onde participo eu, Frank Sturgies (CIA), Vilfred Navarro (CIA), o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas (já falecidos), onde se refere que há entraves ao tráfico de armas que têm de ser removidos.

Depois há um outro jantar também no Hotel Sharaton, onde participam, entre outros, eu e o Cor. Oliver North, onde este diz claramentete que “é preciso limar algumas arestas” e “se houver necessidade de se tirar aguém do caminho, tira-se”, dando portanto a entender que haverá que eliminar pessoas que criam problemas aos negócios de venda de armas. Oliver North diz-me também que está a ter problemas com a sua própria organização, e que teme que o possam querer afastar e “deixar cair”, o que acabou por acontecer.

Haviam também Portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o Gen. Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio.

Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar  com lobbies instalados.

Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições.

Restava portanto a via de um atentado.

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3 comments

  1. O caso de Camarate está repleto de histórias e de ficções, de oportunistas e de aldrabões. Esta é mais uma dessas histórias, mesclada com alguns aspetos verídicos, de um sr. que, uma vez mais, pretende promover-se e ganhar uns milhares, vendendo gato por lebre – De um tal Albarrã, antigo colono de Moçambique, que conheci pessoalmente na redação da extinta DR-Rádio Comercial . O mesmo sujeito, sem ideais e sem ética, que não se importou de fazer publicidade na TV a um anúncio de uma pasta de dentes, sim, que, longo da sua carreira, sempre se notabilizou pelo oportunismo e mercenarismo politico e jornalístico – É verdade que ele privou com gente da alta finança e com muitos políticos e policias, nacionais e estrangeiros, mas vir dizer que foi a CIA que mandou assassinar Francisco Sá Carneiro, é uma tremenda ficção – Como é do conhecimento público, Francisco Sá Carneiro, só à última hora é que alterou a sua agenda, decidindo ir ao comício do Porto, com Soares Carneiro (meu antigo comandante dos comandos, em luanda) candidato da ADI às presidenciais – A bomba destinava-se a eliminar este general, pois, alguém – com quem Albarrã, também privava – frustrado por não ter sido convidado e com pretensões a preencher essa candidatura, acreditava que, depois de ser eliminado, pudesse vir a ser chamado – Como se sabe, na politica também há criminosos de alto gabarito, senão atente-se no que foi capaz de fazer à sua cliente, um tal Duarte lima e outros trapaceiros e oportunistas do mesmo género . Dou tanto credibilidade às afirmações de Albarrã, como às peripécias de um tal cadastrado, Fernando Farinha Simões, que, na década de 90, veio assumir da co-autoria no atentado de Camarate que vitimou Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que diz ter “envolvido a CIA, a secreta francesa, traficantes de armas, Henry Kissinger, Oliver North,Frank Carlucci, conselheiros da Revolução, o Grupo Bilderberg e …Pinto Balsemão” – etc. etc. – Obviamente que, para aldrabões e crápulas desta natureza, ávidos de exibicionismo e de darem nas vistas, não falta imaginação a rodos. O que lhes falta é serem honestos e sinceros. – Tenho acompanhado o caso, falando com investigadores, nomeadamente, autores das obras que foram publicadas sobre o Caso Camarate e também conheci o José Esteves, na altura guarda-costas de uma alta personalidade politica do CDS; acusado de ter colocado a bomba – e, avaliar pelo que lhe ouvi, acredito que tenha sido ele o autor –Mas, como disse a bomba, tinha outros destinatários: pois quem o fez terá entendido que assim podia matar dois coelhos com a mesma cajadada: um que lhe fazia alguma sombra no partido e outro que lhe tirava a ambição de alcançar o estrelato na PR. Sobre o assunto já me pronunciei num extenso artigo no meu site http://www.vida-e-tempos.com/2013/11/caso-camarate-francisco-sa-carneiro.html

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