A VERDADE SOBRE D. AFONSO HENRIQUES – I – Os Primeiros Anos

O infante D. Afonso (“Henriques” a seguir ao nome bastaria para mostrar não ser filho de rei) era filho dos condes D. Henrique – um filho secundogénito de Henrique, duque de Borgonha – e de D. Teresa, filha bastarda do rei de Leão e Castela, Afonso VI.

Afonso Henriques nasceu em em 25 de Julho de 1109, provavelmente em Viseu, pois é nesta cidade beirã que, por essa altura, se pode determinar historicamente a presença de sua mãe, a infanta D. Teresa, atendendo à reconstituição do seu itinerário com base nas fontes documentais da época. Assim o considera José Mattoso, o medievalista que, no século XX, mais contribuiu para a reflexão historiográfica sobre o reinado afonsino, editando criticamente Alexandre Herculano, revisitando a obra de todos os historiadores anteriores e publicando um extenso trabalho original sobre o tema ao longo de 25 anos.

O futuro rei foi educado (“criado”, como então se dizia) no Entre Douro e Minho, em terras de seu aio, possivelmente D. Egas Moniz de Ribadouro. Órfão de pai em 1112, portanto com 3 anos,  até aos doze  esteve entregue aos cuidados de seu aio, Egas Moniz, honrado e lealíssimo carácter que tantas provas lhe deu de dedicação e amor.  Aos catorze anos foi armado cavaleiro na catedral de Zamora. 

D. Teresa ficara governando Portucale durante a sua menoridade. Sendo ambiciosa, esforçava-se por subtrair os seus estados à suberania de Leão; daqui resultaram grandes lutas, em que o espírito da independência, que sempre tinham manifestado os barões do sul do Minho, auxiliou poderosamente as suas vistas ambiciosas. D. Teresa, porém, deixou-se cativar pelo prestígio dum fidalgo galego, D. Fernão Peres, conde de Trava, e os projectos de ambição tomaram um carácter mais pessoal. O conde de Trava insinuou-se no espírito de D. Teresa, pretendendo desposá-la para assim desapossar o jovem Afonso Henriques dos estados que de direito lhe pertenciam. 

D. Afonso, apesar dos seus verdes anos, e que não vira nunca com bons olhos os amores de sua mãe, tornou-se chefe do movimento revolucionário, preparado pelos fidalgos, verdadeiros e leais portugueses, que exigiam a conservação da sua independência. D. Afonso VII, rei de Leão, que sucedera a seu pai D. Afonso VI, não desistindo do intento de conservar a suberania sobre os estados de Portucale, aproveitou o ensejo, para o invadir em tom de guerra, cercando exactamente Guimarães. Esta invasão veio perturbar de alguma forma os dois partidos, o de D. Teresa e o de seu filho, e acirrar ainda mais os ânimos; o jovem príncipe português, vendo-se a braços com a guerra interna, não desejava envolver-se em conflitos externos, e por isso, querendo ver-se livre o mais breve possível do seu adversário, prometeu tudo quanto ele exigia, empenhando Egas Moniz a sua palavra em como a promessa seria cumprida. D. Teresa também acedeu às suas exigências, D. Afonso retirou-se tranquilamente para os seus estados. Então, tornou-se ainda mais encarniçada a guerra entre os dois partidos; e estando D. Teresa em Guimarães com o conde de Trava, D. Afonso Henriques marchou contra eles seguido pela maior parte dos fidalgos portugueses. O conde do Trava saiu-lhe ao caminho com o seu exército nos campos de S. Mamede, onde se deu renhida batalha.

Continua

 

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