Portugal e o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908

O regicidio de 1 de Fevereiro de 1908, ocorrido na Praca do Comercio (na época mais conhecida por Terreiro do Paço) em Lisboa, marcou profundamente a Historia de Portugal uma vez que dele resultou a morte do Rei Dom Carlos e do seu filho mais velho e herdeiro do trono, o Princepe Real Dom Luis Filipe, marcando o fim de uma tentativa de reforma da Monarquia Constitucional e consequentemente, uma nova escalada de violência na vida pública do Pais Cinco meses antes do regicídio, Manuel Buíça ficara viúvo. Os dois filhos que estavam ao seu cuidado eram a principal preocupação, deixada a letra de tinta quatro dias antes do assassínio do rei. “Apontamentos indispensáveis se eu morrer” – foi esse o nome que Manuel Buíça deu ao documento onde explicava ser natural de Bouçoães e ter dois filhos Alfredo Costa era, como lhe chama Jorge Morais no livro “Os últimos dias da Monarquia”, o “chefe do ‘grupo dos 18’”.  Tinha 23 anos no dia do regicídio. O jornalista recuperou a descrição que Aquilino Ribeiro faria mais tarde do líder do golpe. “Alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste […], grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez que parecia de sonâmbulo e era de atenção, um nada de barba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda”. Um homem que se educou “como pôde” Mas foi Buíça quem disparou certeiro sobre o rei. Almoçou com Costa no Café Gelo, no Rossio, um ponto regular de passagem para os conspiradores. Pediram uma omeleta e beberam uma cerveja cada e Buíça, 32 anos, escreve uma última carta a Maria, a sua amante. “Vou morrer matando – ironia curiosa e para muitos talvez incompreensível e portanto condenável.” Poucas horas depois, o atirador salta para o meio da rua, onde o landau da família real passa. Encosta a carabina ao rosto e, de joelho no chão, dispara sobre D. Carlos, que está de costas. “O projéctil atingiu-lhe a base do pescoço, destroçando-lhe a coluna vertebral”, Alfredo Costa surge mais à frente e também ele dispara sobre um D. Carlos inerte, já tombado sobre a rainha. De seguida, aponta a D.Filipe, o príncipe que já empunhava a sua Colt 38. Costa atinge o herdeiro no pulmão, um tiro que acabaria por revelar-se também fatal. Em Portugal não havia memória de um regicídio. D. Sancho II foi deposto e substituído pelo irmão Afonso III. O mesmo sucedeu a D. Afonso VI, tendo o irmão, D. Pedro II, reinado e casado com a cunhada. Filipe IV (III de Portugal) foi substituído por D. João IV, na sequência da Restauração. Mas um acto que atentasse com sucesso contra a vida do soberano – com excepção do que visou D. José I, em 3 de Setembro de 1758 – isso nunca tinha ocorrido entre nós, ao invés do ocorrido em países europeus. Recordemos os assassinatos dos monarcas franceses Henrique III e Henrique IV, e a execução de Luís XVI, o presumível homicídio de Eduardo II de Inglaterra e a execução de Carlos I, e, em Castela, o assassinato de Pedro I. A morte do rei D. Carlos e do príncipe Luís Filipe, ocorrida a 1 de Fevereiro de 1908, foi um momento de viragem. Para além da polémica, que se prolongou no tempo, sobre o atentado, seus organizadores, protagonistas e motivações, as consequências dos dois magnicídios foram profundas. A subida ao trono de D. Manuel, que, não obstante a sua juventude e impreparação, ou talvez por isso mesmo, podia ter sido um factor de apaziguamento nas lutas fratricidas no campo monárquico, acabou, afinal, por constituir apenas um adiamento daquilo que muitos julgavam inevitável: a mudança de regime, que veio a ocorrer menos de três anos depois.

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