Portugal foi mesmo neutro na II Guerra Mundial?

Diz-se e repete-se que a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial se ficou a dever ao talento político do ditador. Mas terá sido assim? E Portugal foi mesmo neutral?

Salazar tinha sido um decisivo aliado de Franco na Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, mas, ao rebentar a II Guerra Mundial, neste último ano, interessava-lhe impedir a todo o custo que o ditador espanhol (com quem assinara pouco antes o Pacto Ibérico) entrasse no novo conflito. Se ele o fizesse, obviamente ao lado da Alemanha de Hitler, arrastaria inevitavelmente Portugal, deixando o nosso país vulnerável tanto à possível ocupação por tropas nazis (ou da Espanha franquista em seu nome) como ao hipotético desembarque dos ingleses, à semelhança do que sucedera 130 anos antes, aquando das Guerras Napoleónicas. De qualquer forma, o território nacional transformar-se-ia num teatro de guerra. Quanto ao Estado Novo, ficaria entalado entre dois imperativos de consciência: a fidelidade à aliança britânica, fosse ela o que fosse, e os compromissos com as jovens ditaduras, às quais estava ligado por afinidades ideológicas e interesses de sobrevivência.

A verdade é que, em 1940, Portugal se viu mesmo confrontado com o dilema das fidelidades. A França já fora invadida pela Wehrmacht e a Inglaterra combatia sozinha contra a Alemanha. Hitler, que em vão tentara convencer Franco a aderir ao Eixo Roma-Berlim, pensou atravessar com os seus Panzers o território espanhol para atacar Gibraltar por terra, numa intervenção militar que exigiria a ocupação de Portugal. A Inglaterra mostrou na altura não estar em condições de defender o território luso de uma violação das suas fronteiras terrestres (até porque não era ainda tempo de abrir uma frente de combate na Europa), limitando-se a aconselhar o Governo de Salazar a retirar para os Açores em caso de invasão hitleriana ou franquista, após simular a defesa do território.

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Não era, aliás, do interesse de Londres que Lisboa entrasse no conflito ao seu lado, como fizera na I Guerra Mundial, também contrariando os seus desejos. O Portugal de 1940, de qualquer modo, não era impelido para a guerra junto da “velha aliada” por uma necessidade premente como a da defesa das colónias africanas, que um quarto de século atrás tinham sido objeto de cobiça tanto de britânicos como de alemães. E Salazar não ignorava que a sobrevivência do seu regime passava por estar nas boas graças de ambos os lados de um confronto de desfecho ainda incerto.

Por sorte, as aventuras guerreiras de Mussolini nos Balcãs, descambando em desaire militar perante a Grécia, voltaram Hitler para um cenário bélico de emergência com que não contava, aliviando providencialmente a pressão na Península Ibérica. Seguiram-se os compromissos militares da Alemanha contra os ingleses no Norte de África e, por fim, a desmesurada invasão da URSS, que se transformaria depois no túmulo do III Reich.

Assim, a invasão de Portugal nunca se concretizaria, embora algumas precauções tenham sido tomadas, como a instalação de peças de artilharia antiaérea em partes centrais de Lisboa.

Posto de lado o risco de invasão do continente, os Açores revelar-se-iam a parte do território nacional mais disputada, já que a posse de bases aeronavais no arquipélago seria de importância fulcral para ambos os lados em confronto. Mas a Alemanha, potência sobretudo continental, não dispunha de meios para o ocupar. Quanto à Inglaterra, solicitou a Salazar a concessão de bases nas ilhas, o que este começou por rejeitar receando represálias dos alemães, com os quais mantinha um frutuoso diálogo económico que incluía a venda de volfrâmio pago em barras de ouro. Ciumenta, a Inglaterra, à qual Portugal também fornecia volfrâmio, chegou a esboçar um boicote económico ao nosso país, para desgosto do embaixador Armindo Monteiro, um anglófilo que preconizava a entrada na guerra ao lado dos britânicos, ousadia que lhe valeria a substituição no cargo. O governo de Churchill, que via em Monteiro um bom substituto de Salazar, chegou até a mover cordelinhos para o depor através de um golpe, mas a mudança de atitude do ditador português quanto aos Açores fá-lo-ia recuar.

Resumindo: durante a primeira parte do conflito, até à reviravolta na sorte das armas do outono-inverno de 1942-43, Salazar pôde sem custo gerir uma neutralidade que apregoava rigorosa e que tanto ingleses como alemães gostariam de ver mais colaborante. Mas ao aperceber-se de que os Aliados tinham todas as probabilidades de vencer respondeu favoravelmente aos pedidos de Londres, e uma base britânica acabou por ser instalada nos Açores. Ao pedido inglês seguiu-se o americano, e uma vez mais Salazar optou numa primeira instância pela negativa: tolerava a Inglaterra mas detestava os EUA e desconfiava do papel que uma América convertida em superpotência pudesse vir a desempenhar num mundo talvez futuramente pautado por valores de um liberalismo extremo.

Mas também aqui acabaria por ceder, rendido ao peso das tropas americanas deslocadas para a Europa na contenção do expansionismo soviético para Ocidente.

Amainada a tempestade, Salazar sobreviveu, contra as previsões. A lógica maniqueísta da Guerra Fria fazia-o alinhar do lado dos “bons” capitalistas contra os “maus” comunistas. Igual sorte teve Franco, mesmo sem ter cedido bases aos Aliados nem ter encenado, como Salazar, um simulacro de eleições legislativas.

Houve mérito de Salazar na manutenção do estatuto de neutralidade? O seu único verdadeiro mérito terá sido o de se esforçar por conter a adesão de Franco ao Eixo. Mas se Portugal não entrou na conflagração foi, primeiro, porque Hitler acabou por não invadir a Península; e, depois, porque a Inglaterra assim o quis.

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